“Só termina uma vez. Tudo antes disto é progresso.”
Lost terminou de vez e independentemente de sua opinião sobre o final ou sobre o rumo que a série vinha tomando nesta última temporada é inegável que uma era acabou. A história da televisão pode ser facilmente dividia entre antes e depois de Lost. A série mudou a maneira de se assistir TV. O telespectador deixou de ser apenas espectador e passou ter um papel mais ativo na narrativa, teorizando, buscando pistas e examinando cada frame de cada episódio atrás de algo que pudesse levar a um entendimento maior da trama geral. Mais importante que isso, Lost marcou os fãs ao apresentar personagens cativantes, complexos e apaixonantes. Naquela ilha não havia apenas o médico, a fugitiva, o golpista ou o roqueiro drogado. Tais rótulos são simplistas demais para classificar aqueles indivíduos. Pessoas reais, complexas, com medos, anseios e sonhos. Pessoas que se tornaram nossos amigos nestes últimos seis anos e por isso é tão difícil seguir em frente. E no fim, é exatamente isto que o series finale propõe: apreciar a excelente jornada até aqui e seguir em frente.
E Lost sabe que foi uma jornada e tanto. Mesmo com os vários tropeços desta reta final, o saldo é positivo. Veja como é fácil escolher uns poucos momentos ruins da série, mas é quase impossível se decidir sobre quais os 10, 20, 100 melhores momentos de Lost, que ao longo destes seis anos nos apresentou a uma infinidade de cenas memoráveis, muitas lembradas nestas horas finais. Qual não foi minha surpresa ao perceber que estava sorrindo ao mesmo tempo em que tinha os olhos marejados ao ver os flashes de Sawyer e Juliet mostrando o efêmero, mas profundamente tocante relacionamento do casal? O que dizer do reencontro de Claire e Charlie, certamente um dos personagens mais queridos de todo o público? No entanto, realmente fiquei estraçalhado quando Jack toca o caixão de seu pai. Toda a série passou em alta velocidade diante de nossos olhos, desde o acidente (com destaque para o momento em que Kate costura a ferida de Jack, cena que ficará para sempre em minha memória), passando pela tensa operação de Boone, até o emocionante beijo de despedida entre a sardenta e o médico sobre o penhasco. Descobrir que Kate era sua alma gêmea foi algo que surpreendentemente me deixou muito feliz. Os dois funcionavam juntos. E na temporada passada, Jack explodiu uma bomba de hidrogênio por ela. Ou seja, seu amor era verdadeiro. Ainda sobre o beijo de despedida, todo o momento foi extremamente tocante, não só pelo fato de finalmente sabermos que eles se amavam, mas por percebermos, assim como eles, a natureza trágica daquele romance. Jack e Kate sabiam que aquele beijo seria o último momento teriam juntos, que uma vez que eles se soltassem, nunca mais voltariam a se ver. Lost é estória de todos aqueles personagens, mas acima de tudo é a estória de Jack. Falho e perdido como todos os demais sobreviventes, o médico percorreu um arco dramático maior e mais turbulento que qualquer outro personagem até chegar a este final, admitindo seus erros e crescendo com seus acertos. Foi emocionante e extremamente prazeroso vê-lo admitir o valor de John Locke ao dizer para o Monstro: “Você não é John Locke. Você desrespeita sua memória ao vestir o rosto dele, mas você não é ele. Acontece que ele estava certo sobre a maior parte das coisas. E só queria poder ter dito isto a ele enquanto ele ainda estava vivo”. Seu embate com o Monstro no penhasco em meio a uma tempestade enquanto a ilha ruía foi épico, digno do final de algo tão marcante como Lost. No entanto, tudo isto empalideceu diante da cena final em vemos Jack percebendo que está na pós-vida, ao mesmo tempo em que vemos o Jack da ilha se repousando no bambuzal em que tudo teve início, sorrindo ao ver que seus amigos conseguiram sair daquele lugar e finalmente descansando, num plano que diretamente remete aos primeiros segundos da série, fechando o círculo de Lost magistralmente. Fiquei muito satisfeito com a revelação final da verdadeira natureza da “realidade paralela”. Entendo por que muitos não gostaram, mas a meu ver simplesmente não havia outra maneira para finalizar a série a não ser esta. O episódio teve suas falhas sim, como o pouco inspirado interior da caverna da luz que mais pereceu um cenário reciclado de algum Indiana Jones, a ridícula rolha da ilha ou fato de Penny aparecer na igreja sem nunca ter pisado na ilha, enquanto que Ana-Lucia, Miles, Faraday, Walt e Charlotte terem ficado de fora (“o tempo que vocês passaram naquela ilha foi o mais importante de suas vidas”. Quanto a questões pendentes, fico triste pelo fato de Walt e da Dharma não terem recebido o cuidado e a resolução dignos da importância que a própria série conferiu a eles ao longo destes anos, mas de modo geral foi um final extremamente satisfatório. Em meio a mistérios não respondidos, a certeza que fica é que Lost irá fazer falta.
E assim como Jack, Kate, Sawyer, Locke e todos aqueles que estavam na igreja, é hora de termos um flash destes seis inesquecíveis anos e seguirmos em frente, por mais difícil que isto pareça. Seguir em frente não significa se esquecer da série ou abandonar aqueles personagens queridos, mas sim reconhecê-la não só como um marco da televisão mundial, como também algo que fez parte da vida de cada um dos milhões de fãs pelo mundo a fora e que certamente continuará gerando discussões por anos a fio.













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