Logo no começo de Across the Sea, pouco antes de Claudia dar a luz a Jacob e ao Homem de Preto, a misteriosa mulher que logo passaríamos a conhecer apenas por “Mãe” diz a ela que “cada pergunta que [ela] responder irá simplesmente levar a outra pergunta”, e tal frase é o resumo perfeito para o tão aguardado episódio de Lost que enfim revelaria as origens dos principais antagonistas da reta final da série. Across the Sea veio e foi e criou mais questões do que esclareceu, e não de uma boa maneira.
Realmente vimos a origem de Jacob e do Homem de Preto (que aparentemente não possui nome algum), que comprovou a teoria de muitos de que eles eram irmãos gêmeos. Descobrimos como ele se tornou o Monstro de Fumaça, descobrimos quem construiu, ou melhor, começou a construir a roda que move a ilha e descobrimos o que o guardião da ilha deve proteger: seu “coração”, a Luz. O episódio nos revelou, sim, muitos fatos que os fãs estavam loucos para ver com os próprios olhos. Fatos, entretanto, não são respostas, por mais que Carlton Cuse e Damon Lindelof, roteiristas deste episódio, tenham tentado nos convencer do contrário. Sabemos que a Mãe era a guardiã da ilha na antiguidade e que ela era, aparentemente, toda poderosa, mas nunca descobrimos o que ela fez para que Jacob e seu irmão não pudessem machucar um ao outro. Também nada é explicado a Jacob (ou ao telespectador) sobre a Luz que reside no interior na ilha, a mesma que existe em todas as coisas vivas, e que nunca deve se apagar, pois caso se extinga na ilha, ela se apaga em todo o resto. Nada é explicado à Jacob, quando sua mãe morre e mesmo assim, séculos e séculos depois ele entende todos os mistérios da ilha. Pior é o momento em que, indagado pela Mãe sobre como ele saberia instalar a roda na Luz da ilha para poder sair da mesma, o Homem de Preto se resume a responder “Sou especial”, criando aquela que possivelmente é a resposta mais preguiçosa de Carlton e Damon para um mistério nestes seis anos de Lost. Pode parecer reclamação indevida, mas foi Lost que nos ensinou a prestar atenção nos mínimos detalhes e agora se apóia na sua mitologia e na boa vontade dos fãs para entregar respostas preguiçosas como “sou especial” ou “é a vontade da ilha”. Muitos vão dizer que Lost não é uma série que entrega respostas “mastigadas”, que não é expositiva. No entanto, tal argumento se torna patético em relação a este episódio que insiste em vestir o gêmeo malvado com roupas pretas e o mocinho em trajes brancos sem nenhum motivo aparente, a não ser para garantir que o telespectador saiba para quem deve torcer. Como uma trama de personagens, Across the Sea funcionou muito bem. Ao fim de The Candidate somos levados a pensar que o Homem de Preto é absolutamente mal, mas aqui vemos como ele se transformou de um garoto curioso num ser capaz de matar qualquer um para alcançar seu objetivo. Objetivo este que nasceu de um desejo que sempre lhe foi negado: conhecer o que há além do mar (neste ponto o episódio falha novamente ao não explicar por que Jacob pode ir e vir da ilha quando e bem entender e o Homem de Preto não). E a Mãe representa uma figura realmente intrigante e interessante, mas que infelizmente é pouco explorada. Across the Sea não é um episódio ruim, longe disto. É apenas terrivelmente desapontante. E se levarmos em conta que é o antepenúltimo episódio de toda a série, a frustração se torna ainda maior.
E para aqueles que irão dizer que pelo menos a revelação sobre Adão e Eva foi satisfatória e mostrou que tudo estava planejado desde o início, tenho que revelar vocês foram trapaceados. Não, não estou insatisfeito com as identidades dos esqueletos, na verdade até gostei muito, o que me incomodou terrivelmente foi a maneira manipuladora com que a cena foi montada. Vemos Jacob colocando as pedras no saquinho e arrumando os corpos da Mãe e de seu irmão ao mesmo tempo em que imagens de House of the Rising Sun (episódio da primeira temporada) são intercaladas, mostrando Jack e Kate descobrindo os esqueletos no futuro, criando uma cena expositiva e que não combina com a série. A montagem leva o telespectador a acreditar que tudo aquilo foi planejado ainda no sexto episódio da primeira temporada, mas desta vez os montadores convenientemente se esqueceram de incluir um trecho da cena original em que Jack diz que os corpos não deviam estar mortos há mais do que 50 anos. Claro, Jack poderia ter se enganado, mesmo que por mais de um milênio (considerando que Claudia falava Latim e usava trajes da Roma Antiga) de diferença, mas o fato das roupas dos esqueletos não terem se decomposto em mais de mil anos é no mínimo estranho.













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